Sobre o autor
Saudações, caros leitores encarnados.
Meu nome é Alan Turing, o Pai da Computação. Isso mesmo, você não entendeu errado. Você deve conhecer Lavoisier, o Pai da Química, ou Newton, o Pai da Física. Certamente conhece Galileu, o Pai da Ciência Moderna. Mas meu nome foi injustamente apagado da história, provavelmente por eu ser gay, e aqueles viadinhos enrustidos dos cientistas não estavam prontos pra sair do armário.
Enfim, na minha época, lá pelos idos de 1930, não existia a profissão de cientista da computação, e pode-se dizer que eu fui o primeiro da espécie. Mas, inicialmente, eu queria ser químico. Sim, isso porque meu avô era muito amigo de um dos químicos mais famosos de todos os tempos: o senhor Joseph Louis Gay-Lusac (que não era gay, não confunda). Através do senhor Gay-Lusac eu me apaixonei pela química, mas logo descobri que essa porra não dava dinheiro, e pensei: "Tô fora".
Me tornei, então, um matemático (é, isso sim, dá dinheiro. Onde que eu tava com a cabeça?). Mas, acima de tudo, eu era um visionário e, isso sim, poderia me deixar rico. Comecei criando modelos teóricos de máquinas que computavam, sendo o mais famosos deles a "Máquina de Turing". Vocês, que estão acostumados a usar o computador/celular pra ver vídeos de dancinhas de gosto duvidoso em vez de estudar (quase me arrependi de ter criado essa joça quando soube disso), experimentem dar uma olhada na Máquina de Turing qualquer dia. Garanto que não vão entender nada. Nem os alunos da Computação entendem. Mas isso é outra história.
O fato é que, em determinado momento, percebi que poderia construir um computador digital, mas ainda me faltavam muitas peças. Então, quando me chamaram pra decodificar mensagens nazistas na guerra, decidi criar um protótipo eletromecânico dessa máquina. Chamei ele de "Bombe", porque o trem era tão barulhento que parecia o tique-taque de uma bomba relógio, e às vezes a própria bomba explodindo. Posteriormente, meu amigo William Welchman (tá, dei uns pega nele, admito) me ajudou a aprimorá-lo, e a nova máquina ficou conhecida como "Bomba de Turing-Welchman" (não confundir com a Máquina de Turing, que é um modelo teórico). No filme "O Jogo da Imitação", homenagem que me rendeu muitas lágrimas e muito orgulho, é mostrado que eu chamava a máquina carinhosamente de "Christopher", em homenagem a um amigo de infância que havia falecido. Por causa disso, recebi uma enxurrada de mensagens perguntando se Christopher fora meu peguete ou meu primeiro amor. Mas a verdade é que Christopher saiu do rabo daqueles roteiristas, e jamais existiu no mundo real. Meu primeiro amor de verdade... bom, talvez eu conte pra vocês um dia. Me lembrem.
Mas voltando para a Segunda Guerra Mundial, a Bomba de Turing-Welchman foi um sucesso, e conseguimos decodificar os nazistas. E quão grande foi minha surpresa ao descobrir que eles eram outro bando desses viados enrustidos (deu pra ver que tinha bastante naquela época, né?), e que o nazismo todo não passava de um pretexto pra dar a bunda e praticar toda sorte de desregramentos. Até aí, tudo bem. Mas quando me parabenizaram por meu trabalho, dizendo que eu conseguira adiar a parada gay em uns 50 anos, meu coração despedaçou. Ah, que sonho teria sido ir à primeira edição. Mas OK. Se pensarmos bem, as pessoas daquela época eram muito atrasadas, e não estavam prontas pra tanto glamour.
Mas claro que minha vida não foi só glamour. Em determinado momento, a justiça britânica começou a me investigar. Foi assim. Toda segunda-feira meu "date" ia lá em casa. Um dia nós brigamos, e algum vizinho fofoqueiro chamou a polícia. Ao chegarem lá, viram que não tinha nada de errado. Mas um dos policiais, esse sim, um viadinho enrustido desgraçado, encanou comigo e começou a me investigar. Acabou que eu fui preso e condenado pela prática do homossexualismo, o que foi um enorme absurdo, pois eu só dava a bunda uma vez por semana, e a lei permitia até duas vezes. Muito tempo depois, em 2013, eles viriam a me conceder o chamado "perdão póstumo". Mas se eles acharam que essa palhaçada ia me impedir de assombrá-los, eles iam ver só.
Seja como for, o fato é que eu não suportei minha sina e morri de desgosto. Dizem que me matei, o que é verdade. Desejei a morte e a chamei insistentemente, todos os dias. Até que um dia ela veio, bastante contrariada: "Seu viadinho desgraçado, não aguento mais essa encheção de saco. Todo dia me chamando. Agora você vai ver o que é bom pra tosse."
Ela me levou e me deixou em um lugar terrível. Um lamaçal sem fim, com um monte de gente sofrendo e se lamentando. Mas eis que eu vejo a luz. Os amigos da comunidade LGBTQIAPNOPQRSTUVWXYZ+ (véio que saco isso. De agora em diante vou chamar só de comunidade gay) espiritual vieram me resgatar. Que recepção calorosa eu tive, e que lugar maravilhoso o que me levaram (ah, se os cristãos soubessem...).
A vida do outro lado da matrix é boa, até demais. Estava sentindo falta de desafios, uma vez que a computação já era bem desenvolvida por aqui. Comecei, então, a escrever histórias sobre tudo quanto eu havia vivido e aprendido no plano carnal. Fui escrevendo, descompromissadamente. Às vezes alguns liam, e gostavam. Diziam que eram engraçadas. Engaçadas? - eu pensava. Sempre escrevi de forma séria. Mas talvez minha vida fosse tão tragicômica que não pude evitar. Enfim, seja como for, um dia me disseram que eu poderia mandar mensagens aos encarnados no plano físico, e que as histórias que escrevera seriam muito bem quistas por lá. Eu disse: "É sério? Mas que magia é essa de se comunicar com os vivos? Os caras não falavam que a bíblia proíbe isso terminantemente?" "Proibir até proíbe" - respondeu meu amigo. "Mas a gente consegue hackear a matrix. Conversa lá com o pessoal das redes. Você foi gênio da computação, não deve ter dificuldade."
O mundo das redes é simplesmente maravilhoso. Se soubesse disso antes, não ia perder tempo fazendo aquelas máquinas barulhentas. Com poucas linhas de código eu hackeava aquelas mensagens nazistas e boa, pau no cu do bigodinho. Mas, pra hackear a matrix e enviar mensagens, precisamos também hackear a mente de um encarnado, e essa é a parte mais difícil. Precisamos encontrar um que tenha suscetibilidade para o hackeamento, que é o que os encarnados chamam de mediunidade, e também que seja compatível com você que está mandando a mensagem. Em outras palavras, é uma via de mão dupla. Se fizer errado pode dar ruim, seu pinto pode cair, essas coisas.
Demorou um pouco mas, por fim, eu encontrei. Seu nome era João Frô (ou João Flor, é que ele era de Minas), um jardineiro da belíssima cidade de Poços de Caldas. Um gay muito respeitado, em uma cidade super conservadora, ainda mais em uma época em que nós não éramos nada respeitados. Eu fiquei entre ele e o famigerado "Viado da Madrugada", outra figura icônica da cidade. Mas o Viado da Madrugada era muito safado, só queria ficar na noite... ou na madrugada, que seja. João Frô era mais centrado, ia dar mais certo. Mas ainda vou escrever sobre o Viado da Madrugada um dia. Me lembrem. Figuraça.
Mas voltando ao João Frô, nossa compatibilidade foi instantânea. Digitei os códigos, hackeei sua mente, e comecei a escrever. E cá estou eu, a escrever-vos, caros leitores encarnados, desde então. Fiz este site em PHP (excelente linguagem, diga-se de passagem. Muito melhor que aquela porcaria de JavaScript), aonde tenho publicado minhas histórias. Algumas são longas, outras bem curtinhas. Tem pra todos os gostos. Espero que apreciem o trabalho deste fantasma que vos fala. Ah, e se tiverem sugestões, elogios, críticas, ou simplesmente quiserem bater um papo, deixem sua mensagem. Será um prazer responder-vos.
Muchas gracias, e...
Até!
Alan Mathison "Fantasma de" Turing